terça-feira, dezembro 20, 2005

O desnorte... ou o poder do Papa.


Quando se fala de intenções, normalmente das boas, é verdade que anda o inferno cheio.
Isto, a propósito da vontade do meu partido socialista reconhecer às mulheres a possibilidade de escolherem livremente o direito à maternidade.
O problema é multifactorial e revela um grande desnorte do partido enquanto voz colectiva, imperando as pequenas tendências, habitualmente com enorme capacidade de pressão, impedindo o cumprimento de algumas das promessas mais mediáticas do partido.
Porque o que me parece claro é que por trás da promessa do referendo estava mais do que o referendo propriamente dito, estava a despenalização de uma prática frequente entre as mulheres, normalmente as mais desfavorecidas, que é a prática do aborto.
Nós somos um país irracional... onde se prefere proibir do que regulamentar.
A título de exemplo, vejam-se as placas de limite de velocidade de 10 ou 20 Km/hora que costumamos encontrar em algumas estradas, como se fosse possível transitar a essa velocidade... Veja-se a proibição de uma das práticas mais frequentes como é o caso da prostituíção, a proibição do consumo de drogas... adiante!
A acrescer ao incumprimento da promessa eleitoral, dado que o referendo foi mandado para as malvas, o governo, agora pressionado pela necessidade real da redução de custos, decidiu que as mulheres mais desfavorecidas e que iam aos centros de saúde buscar os seus anticoncepcionais de forma gratuita, só podem a partir de agora ter direito a medicamentos da velha guarda. Nem pílulas recentes, nem adesivos, nem aneis.
Querem controlar a natalidade?! Pratiquem abstinência, porque parece que o sexo passa a ser um direito de quem tem dinheiro!
Consta que a par disto se pretende cortar a comparticipação a todos os anticoncepcionais fora do âmbito dos centros de saúde.
Moral da história: Nem despenalização, com a possibilidade de, em casos controlados, se poder realizar abortos em instituíções hospitalares, nem a prevenção da gravidez indesejada.
Há sempre um caminho. Manter a situação actual com vantagens claras para quem tem poder económico, que pode optar por fazer cá, sem problemas de maior, o que sendo ilegal é sempre possível, ou fazendo lá fora, onde já é legal, mas precisando ainda de mais do tal vil metal que uns, como sempre, têm mais que outros.
Com este medida, não se agitam demasiado as águas e não se provoca mal estar na igreja e nos lobbys que trabalham no interior do PS.

Nesta, como noutras coisas, importa encontrar o Norte e agir de acordo com as ideias que temos e anunciamos.
Normalmente, a gestão de vão de escada empurra os países exactamente para o local indicado, o vão de escada.
Termino com duas perguntas: Porque nos preocupamos tanto em aumentar a natalidade?
Os países mais desenvolvidos da Europa não serão precisamente os que têm uma pirâmide de idades mais envelhecida?

16 comentários:

blogoexisto disse...

Caramba, isto está cada vez melhor!
É exactamente isto... com sentido de objectividade conseguiu colocar o dedo na ferida. Nem mais!

JL disse...

Este artigo deixou-me pensativo. Concordo com boa parte do que dizes. Insisto, contudo, Eduardo que se não acho bem que uma mulher seja presa por ter abortado (e não tenho conhecimento de que tenham sido,pelo menos nos últimos anos), porque o próprio acto em si já será um sofrimento enorme, acreditando que ninguém toma esta opção de ânimo leve. Tem sido, no entanto, de ânimo leve que ela é encarada por alguns políticos. De tal modo que querem fazer do aborto um método contraceptivo.
Um abraço

Eduardo Leal disse...

Amigo João,

Aqueles que querem fazer do aborto um método contraceptivo, são os que vivem dele.
Quem defende a despenalização, defende também o direito ao planeamento familiar.
A jeito de informação, alguns números: Dos cerca de 1 milhão de abortos provocados e declarados dos USA, cerca de 30% das mulheres faziam contraceptivo, tendo falhado a utilização.
Será que estas mulheres, que efectivamente não queriam ser mães, deveriam ser obrigadas a ter os filhos?
Será que nestes casos o aborto deve ser visto como um método anticoncepcional?

vatamico disse...

Meu caro Eduardo: Está brilhante este artigo! Aliás, este é talvez um dos poucos têmas em que há comunhão de ideias e que ambos remamos no mesmo sentido!Se isto passa por uma defenição do teu partido ou não, acho que é algo que só depende de ti, e desde já posso dizer que acho que te vai dar muito trabalho, mas quem abraça grandes desafios no minimo aguarda grandes dores de cabeça! Tudo passa por tornar um saco de gatos num cabaz de natal!

Anónimo disse...

Surge muitas vezes o argumento do Jl: as mulheres que praticam o aborto não são presas. E que tal será ter que suportar o longos e dolorosos processos em tribunal??? Se não é para cumprir a lei,porque sujeitamos as pessoas a estes processos pessoalmente agressivos,e depois nada?? Tem algum sentido??? Faz algum sentido ter os tribunais cheios e depois fazer julgamentos sem objectivos reais para além da humilhação pública???
Já chega!!!

Eduardo Leal disse...

Achei graça ao saco de gatos...
Aliás é disso que se trata quando falamos de muitos partidos.
Também no partido que se chama social democrata existem sociais democratas com a opção pela liberdade individual, mas existem depois outros com opções ditas mais liberais e que só são liberais na visão sobre a economia.
No partido que se diz socialista, pelos vistos, para além dos socialistas e sociais democratas, se calhar também teremos liberais, democratas cristãos (que também deviam respeitar a pessoa humana como indivíduo responsável), etc.
Gostei do comentário do nosso amigo (a?) anónimo. De facto, às vezes parece que levamos as mulheres a julgamento só pelo prazer de lhes dar um puxãozinho público de orelhas tipo: sua marota... vá... mas não volte a fazer....

Sulista disse...

Já tinha lido várias vezes este teu post mas só agora o comento porque considero-o tão bem feito, certo, que não tenho nada a acrescentar senão o facto de ter ficado muito contente por observar que foi escrito por um homem e positivamente comentado, tambem, por outros homens.

Parabêns Eduardo Leal ;-)

Afrodite disse...

E é claro que eu deveria fazer como toda a gente, ou seja,
mandar mais ‘um’ e-mail pra entupir a tua caixa de mensagens.....

É isso, Natal é um momento de reflexão e
blá,blá,blá,blá,blá,blá,blá,blá,blá,blá,blá,blá......

Desejo-te muita paz, saúde e blá,blá,blá,blá,blá,blá......

Mas sejamos mais realistas...mais verdadeiros....
O que aqui a Afrodite Maria te deseja,
do fundo do coração,é que.....

titas disse...

Gostei muito de te ler.
E lembrei-me da hipocrisia também do Vaticano, no caso do referendo
italiano sobre a fertilização clinicamente assistida......

//(~_~)\\ um beijo da Titas

Sulista disse...

ça va?
:-)

Joeyux noel !!!

vatamico disse...

O maior problema daquilo que é bom , é o simples facto de criar em nós uma vontade enorme de têr mais!De preferência melhor! E eu sei que vcs sabem e podem, só que são calaceiros! Tudo bem que há que dar de comer ás renas,espanar o pinheirinho do ano passado,digerir as tripas á moda do nosso Porto e tal,e tal e tal...! Mas a gula,os problemas renais e o facto de já não haver pinheirinhos deste ano não pode explicar tudo!

JL disse...

Um Feliz Natal para os dois artistas do Fio, por sinal meus amigos, e para as suas familias.

Um abraço

blogoexisto disse...

Feliz Natal

Su disse...

gostei de ler.te
jocas maradas

nunofigueiredo disse...

quinta feira 29 de dezembro 2006
facto positivo do ano 2006:
Benfica campeão nacional e europeu!
Em resultado a economia acelarou e criou mais postos de trabalho, as familias vivem felizes, mesmos as residentes na região galaico duriense!

Gostei do que li!


Que 2006 traga saúde e felicidade, e se isso implicar a vitoria do GRANDIOSO FCP, pois que seja. um abraço.

Eduardo Leal disse...

O meu Amigo terminou com grande sabedoria.
Sobretudo desejo para 2006, justiça e Paz...
No futebol também e muito "fairplay".