quarta-feira, junho 10, 2009

Um Caminho.1


A pergunta inicial é simples:
Como é possível envelhecer e morrer sem saber a idade?!

Que fenómeno estranho nos faz negar o espelho e olhar o mundo com os mesmos olhos de quando tínhamos pouco mais de vinte anos?
E ao mesmo tempo ver passar por nós os olhares do outros, na confirmação implícita da grande inevitabilidade.
De um lado, este espectador sem tempo, este jovem decidido… do outro, do lado de quem passa, o tipo gordo, com o fim anunciado do seu cabelo outrora muito… os seus olhos gastos… as palavras perras.

Sentado na esplanada do café, a olhar o Tejo, esse rio estranho, tão diferente do meu Douro umbilical.
Cansado, quase vencido pelas escolhas que não fiz, ou que fiz contrafeito… apetece-me pensar no caminho… e também nas outras escolhas… as que me vão dando o prazer da vida.
Onde é que tudo começa? Não esse princípio supremo da primeira respiração perante a luz… ou ainda mais atrás, mas onde tudo começa a complicar-se.
Qual o primeiro nó a desatar. Qual a primeira dificuldade em engolir o soluço…

Qual a razão da busca, quem se busca….
Qual o colo que se procura… qual a mão que se deseja?!

Vale a pena contar esta história? Vale a pena este pedaço de vida?
Que adiantámos nós, comuns dos mortais, à salvação da espécie?
Que é que ficará de nós depois da grande fogueira cósmica?
Quem sou eu, este que agora se dedica a pensar em si?
Para onde vou? Vale a pena sequer continuar a ir?

Pensar assim, nestas coisas, é fazer o balanço necessário para prosseguir viagem. Por isso, vamos lá!

Sempre achei que um bom livro se começa pelo título. Porque um bom título é a primeira parte do plano genial.
E a verdade é que não me ocorre nenhum título genial para este caminho…

E, sendo assim, lá vou à procura dos meus passos. Pode ser que me ocorra o nome certo.
Entretanto, aproveito e vou sentindo a brisa de Lisboa, essa terra que não é minha, e inalando o cheiro estranho da saudade…
Pode ser que entretanto a coisa surja, o tal plano genial…

5 comentários:

Paulo Sempre disse...

«Entretanto, aproveito e vou sentindo a brisa de Lisboa, essa terra que não é minha, e inalando o cheiro estranho da saudade.»

A brisa de Lisboa. A minha terra.
Os furasteiros, logo que calcorreiam as ruas de Lisboa, logo ficam contagiados pela saudade das suas terras Natais. Bem...importa resistir aos "mistérios" de Lisboa...e deixar de vislumbrar o tejo com olhares ceguinhos de saudade...
Afinal ..Lisboa é o inicio de muitas aventuras secretas.

Grande abraço
Paulo

Eduardo Leal disse...

Pois. Meu Caro "Paulo Sempre".
O facto da terra não ser minha não lhe tira nem encanto nem mistério.

Mas também não mata saudades.

Cada coisa no seu sítio.
Lisboa é uma cidade magnífica... o Porto é a raíz profunda...

Abraços,

Carmen Ferreira disse...

Mesmo que o título não venha a ser genial, o início é deslumbrante e deixa vontade de mais!!

danadinho disse...

Gostei...embora eu seja mais de ...campo, giestas e ribeiros...

um Ar de disse...

Tantas vezes olhei para esta foto [que diz bem, do menino que representa... pequeno "homenzinho" de lábios vermelhos, que o branco e preto me deixa adivinhar, a mim!...].
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Foi preciso revê-la, de novo e aqui, para perceber a sombra de uma mãe que ostenta a máquina fotográfica de antanho!...
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[Velha Kodack (?) perdida numa viagem, muitos anos depois... por mãos descuidadas e distraídas que, ainda hoje, vão perdendo outros tantos engenhos para parar o tempo! :)]
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Parar o tempo! O tempo do relógio... Não importa, se de sol, se de ponteiros!
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Talvez seja disso que se trata, sempre...
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Ao ver, de novo e renovadamente, uma foto tão olhada, parou o tempo do relógio, na sombra da mãe e no retrato do irmão.
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Claro que importa, o título...
Claro!
"La Chambre Claire...", porque os títulos, nomes de janelas que se abrem, importam! "Punctum"..., também. Roland Barthes dos meus 20 anos... que não foram iguais aos teus... porque consanguinidade é assim, um hiato que nos separa no tempo presente... supostamente a sentir os mesmos cheiros, a ouvir as mesmas palavras [que nunca o são!].
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Mães na sombra... porque Freud! :)[...porque sim...], porque esta foto é: intemporal!
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[Beijo...@]