domingo, abril 30, 2006

Crescei e multiplicai-vos


Crescei e multiplicai-vos!

É, muito provavelmente, com base neste princípio sagrado que o governo da Nação tem legislado em matéria de impostos.

Num artigo de Ana Sá Lopes Contra os Canhões este assunto é tratado de forma muito interessante e, a meu ver em pelos menos dois prismas de importância vital.

O primeiro é a penalização das famílias que optam por ter apenas um filho, subindo os descontos para a “caixa” em relação às demais. Ter filhos volta assim a ser um desígnio nacional, como se estivesse hoje em causa a nossa identidade.
Nós que eramos e ainda somos conhecidos pela nossa abertura ao mundo, pela forma natural como, por decreto ou por apetite sexual, nos misturamos com outros povos, sentimo-nos hoje ameaçados pelos “povos invasores”.
E este é o segundo prisma com que aborda o assunto.
É curioso como não reflectimos sobre o facto de algumas das nações mais prósperas terem sido exactamente aquelas que controlaram a sua natalidade e souberam abrir as suas portas, de forma equilibrada, a outros povos...

A Humanidade assemelha-se hoje a uma imensa arca de Noé onde uma espécie, por necessitar de espaço vital, vai comendo e esmagando as restantes espécies e, porque o barco não cresce, vai empilhando os seus filhos do homem nas várias camadas disponíveis, respeitando princípios sempre actuais, ligados à questão das raças e numa lógica de escuros por baixo e de quanto mais brancos mais ao sol!

Não aprendemos nada!

Eu, como muitos outros portugueses, a minha mulher incluida, (até porque no que diz respeito à reprodução da espécie são as mulheres que têm a opinião mais avalizada), optei por ter apenas um filho. E fi-lo por questões económicas, sociais e ecológicas, sendo que a ordem dos factores é arbitrária.
A minha pulsão primeira era ter mais filhos.
Continuo a acreditar que ter filhos é bom. Realiza quando a tarefa é levada a sério, com respeito pela dignidade dos “miúdos” e com uma atitude de abertura constante às novas formas de ler o "ainda" nosso tempo.
Continuo a respeitar todos aqueles que, porque não pensam neste assunto, ou porque não têm tempo (porque ganhar a vida pode ser uma actividade terrível e extenuante!) ou porque não sabem o suficiente para se anteciparem ao acaso, se multiplicam mais do que me parece equilibrado.
É evidente que entre ter um filho apenas e dar início a uma verdadeira ninhada, há um caminho a percorrer.

A partir de um certo número de filhos, já não consigo compreender os que, escolhendo a via da multiplicação selvagem ainda esperam ser recompensados por isso!
Esperam impostos reduzidos, abonos de família na ordem do: reproduza-se que cada um dos seguintes dá mais que o anterior, casas sociais mais rapidamente do que os casais que se organizam e, quantas vezes com tristeza, fazem verdadeiro planeamento familiar.

Para sustentar tudo isto, o governo deixa de fornecer os novos anticoncepcionais, adia laqueações em mulheres que insistem para o fazer, continua a ignorar o planeamento familiar ao nível das unidades de saúde.

O que não compreendo nem consigo aceitar é que os filhos de todos os que chegam ao nosso país para trabalhar não possam ser vistos como filhos da nossa Nação Portuguesa, educados pelos nossos valores e usufruirem dos direitos que os descontos dos seus Pais lhes deveriam garantir.

Um povo que se afirmou como um Império tem hoje medo dos filhos de quem governou.
Amarga ironia que faz um governo socialista defender o “crescei e multiplicai-vos”.

quarta-feira, abril 26, 2006

Lembrar Abril

E quando fechei o livro, no sagrado desconforto de um prazer terminado, senti que tinha tocado ao de leve numa das respostas necessárias.
Não a resposta à eterna pergunta do “quem sou”, mas à outra: “o que faço aqui”?.
Este livro que fechei – A sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón - é um exemplo de angústias, de histórias tristes como a alma do mundo, deste mundo povoado, e, no entanto, até porque o final é uma promessa de felicidades... fez-me acreditar.
Estamos cá... à procura do deslumbramento!
E ele chega, por vezes, nas páginas de um livro.
Este acreditar que há sempre esperança, mesmo quando tudo insiste em nos lembrar que a história dos homens está repleta de páginas de sangue e ódio.
Acabei de ler o livro nesta tarde de Abril, no dia 25 deste mesmo mês.
E... reconheço agora que a sua história se repetiu em Portugal nalguns dos pontos mais crueis na história recente do meu País.
Cá, como em barcelona - sendo certo que com menos cicratizes e ódios menos refinados – pisaram-se sonhos e torturaram-se muitas vozes com esperança.
E é por isso que eu digo, sobretudo à minha filha Joana, que na mesma tarde de 25 de Abril, mas de 1994, deu os seus primeiros passos na Praça da Liberdade, que não deixe que ninguém lhe minta, dizendo que não há ou houve inspectores “Funero”.
Que não consinta que lhe ocultem as passagens negras da nossa pobre humanidade.
E... sobretudo... que faça que para ela haja sempre Abril.
Uma esperança infindável.
Porque... apesar de tudo... pelo sonho é que vamos.

sexta-feira, abril 14, 2006

Os gaiteiros


Usa-se dizer que somos um País pequeno, onde não se justifica o estabelecimento de regiões.
Não importa para muitos que a língua se fale de maneiras diversas, como não importa que se veja a realidade com outras perspectivas.
O que importa é deixar que tudo continue na mesma... com um País governado a partir de um ponto apenas, para onde convergem muitos e muita riqueza, que , porque o que vai nunca volta igual, acaba por se ficar por lá, obviamente utilizada em obras de indiscutível valor, mas nem sempre realizadas onde mais precisamos todos.

O País é, de facto, um pequeno território, hoje minguado pelas novas estradas, reais e virtuais que nos cruzam de norte a sul e de leste a ocidente.
Hoje, apesar disso, não estamos ainda mais pobres, ou, pelo menos, espoliados de toda a riqueza milenar que temos insistido em arrastar connosco.
Cada dia que passa, parece-me justificar-se mais a marca das diferenças que temos uns dos outros e, ao mesmo tempo, a procura dos pontos de contacto.
Cada dia que passa, sinto-me mais próximo da Galiza, ao mesmo tempo que vejo melhor o que me diferencia dos Algarves...

E nisso não deve ser visto um sentimento qualquer de recusa de qualquer tipo de Portugalidade.
Não me identificando em absoluto com as gentes da nossa ponta a sul, não deixo de ver e entender os pontos que nos unem.
Consigo ver, apesar dos sotaques que nos separam, todos os mil anos que nos unem.
Na língua, claro, mas também nos olhos que contemplam o mundo, ao menos na forma como olhamos certas realidades.

Hoje ouvi uma história real, uma daquelas coisas sem importância, mas que marcam outras proximidades.
Dizia-me um Amigo de Valença (aquela cidade bem a Norte da República Portuguesa), que, todos os anos, por ocasião das festas Galegas a S. Telmo (que é o padroeiro dos navegantes), o Alcaide de Tui vem à ponte que separa os dois antigos condados buscar o Presidente da Câmara desta cidade Portuguesa, acompanhado de uma extensa comitiva de notáveis da galiza e dos Gaiteiros da Praxe, para, com dança e alegria, celebrarem em conjunto as festas do Ajuntamento.

É a história bonita que ilustra que há fronteiras que não conseguem separar certos povos.

E que sendo Portugueses... não deixamos de ser Galegos...

sábado, março 25, 2006

E eles é que são Xenófobos...


Por acaso conhecemos alguma Avenida dos Cabo-verdianos? Alguma Alameda dos Angolanos, dos Moçambicanos ou dos Guineeenses? Será que temos alguma Rua dos Brasileiros ou dos Indianos (mesmo que fosse dos Goeses)?
Temos, é bem certo, Avenidas do Brasil, Ruas de Goa, de Damão e de Diu. Temos ruas da Guiné, de Angola e Moçambique, de Timor e de Malaca...

Somos lestos a venerar as Nações e lentos a pensar nos povos.

Porque será?!

Em França, em plena Capital, encontrei esta Rua que me fez pensar nas grandezas e pequenezas do povo Francês.
Um Povo capaz de gestos de barbárie, é certo. Capaz de atitudes arrogantes e megalómanas, mas também um povo capaz de integrar diferenças.
Dir-me-ão que a capital, como cá, não é expressão da França toda. Não é!
Paris, como outras cidades do mundo, tem em si o melhor e o pior do seu país.
Falta-lhe a autenticidade dos agricultores conservadores do país profundo.
Falta-lhe a habilidade dos mafiosos da costa sul, a coragem e a tenacidade das margens Norte da República.

Mas tem, e isso sente-se no ar, um pouco de tudo o que a França foi, é e será ao longo da história das civilizações europeias.
E isso, gostemos mais ou menos de alguns pontos, faz parte de todos nós.

A grandeza maior... é que em Paris sente-se o mundo. Não nas embaixadas dos países mais ou menos poderosos, mas nos rostos de cada ser humano. Nas ruas, no metro e em cada edifício que visitamos.

E é bonito ver, que para além dos “boulevar’s” e das “Avenues” com os nomes de cada País do Mundo, podemos encontrar tributos a quem faz a história da humanidade... as pessoas de cada povo.

quarta-feira, março 22, 2006

O Março de 2006


Como já perceberam, tenho estado por fora, mais precisamente por terras de França.
E Paris continua uma festa!
E, fundamentalmente, revela uma capacidade de mobilização que admiro nos Franceses desde a Célebre Revolução.
Admiro um povo com capacidade de indignação.
Um Povo que se recusa a aceitar as coisas que considera erradas.
É claro que não aprecio os actos de vandalismo.
E por essa razão, nem me parece justo queimar carros e partir cidades, como também não me parecem justas leis altamente discriminatórias como é o caso do "CPE".
E o poder... exactamente porque detém autoridade, quando mal conduzido, pode ser bem terrorista.
É que é de suprema injustiça para todos os que têm menos de 26 anos poderem ser despedidos de forma arbitrária... como é terrível para os que têm mais de 26 saberem que os patrões tipo "pato bravo" passarão a contratar apenas os despedíveis.
Há ainda outra coisa que admirei nestes dias em que assisti a muitos debates na TF1, a forma como gente de todas as proveniências aderiu à contestação.
Portugueses, Argelinos, Marroquinos, Franceses, Italianos e muitos, muitos outros. A Sharon Stone é um exemplo muito interessante... que não pude deixar de apreciar...
Ainda mais curioso... a principal líder (é verdade trata-se de uma mulher!) é uma jovem de origem Magrebina e não se cansa de fazer apelos à contestação pacífica.
Revoltante é a falta de capacidade de dialogo do Senhor D. Villepin, que, contra a vontade dos seus parceiros do poder, se recusa sequer a considerar a possibilidade de discutir o assunto.
Parece-me que o senhor ainda não percebeu o destino dos reis sóis em fim de carreira.
E para além de tudo isto... Paris é sempre Paris! Uma festa!

terça-feira, março 14, 2006

O mau feitio


Ontem li num jornal Açoreano os comentários de um jornalista sobre o bem conhecido mau feitio de Mário Soares.
Este jornalista referia que, por várias vezes, quando as entrevistas ou algumas perguntas em particular, não corriam de feição, Mário Soares reagia de forma brusca, autoritária, silenciando os incómodos inquisidores.
Até posso compreender que nem sempre os jornalistas têm o bom senso que a profissão obriga.
Até posso aceitar que, muitas vezes, em contextos específicos, existe uma tentação de um certo tipo de jornalismo para procurar temas mais quentes em detrimento dos temas do momento.

Posso compreender muita coisa!
Só não posso compreender, nem aceitar, que um político experiente não saiba a diferença entre diplomacia e grosseria.

A atitude de Mário Soares ao não cumprimentar Cavaco Silva na tomada de posse, revela um não saber perder fora de todos os limites toleráveis da irracionalidade.

Não é bonito nem lhe fica bem.

E, sobretudo, prova que todos nós que decidimos não votar nele para voltar a ser presidente, acabámos por fazer um serviço à Nação. Mesmo que também não gostemos de Cavaco Silva.

É que o sentido democrático não se demonstra nas vitórias, mas, sobretudo, na forma como encaramos as derrotas!

quarta-feira, março 08, 2006

Como gosto de lixo - parte III

E depois dos 3 R's - Reduzir ; Reutilizar e Reciclar - ficamos com toda a montanha de lixo ao qual não sabemos que fazer...
O tal que não conseguimos, à partida, transformar em nada de positivo.
Aqui falta um R, talvez o de Resolver!
Todos os que têm lareiras, salamandras e outro tipo de queimadores já passaram por situações que, de alguma forma, podem simular a solução.
Quando temos excesso de papel e pouca lenha, podemos usá-lo como fonte de energia numa salamandra.
Não é a forma ideal de utilizar este tipo de lixo. É pouco digna para este nosso Amigo, porque facilmente o poderíamos transformar em papel reciclado.
Podemos queimar plásticos e outros materiais combustíveis nas lareiras e salamandras, mas, regra geral os cheiros produzidos são altamente desencorajadores. E, mais uma vez, podemos dar outras utilidades mais nobres a estes materiais...
Agora imaginemos que possuíamos nas nossas casas uma fornalha capaz de produzir calor a partir de todo o lixo para o qual não tivessemos solução.
Imaginemos ainda que essa fornalha tinha os filtros necessários para suprimir os odores desagradáveis e reter os gases perigosos.
A essa fornalha chamaríamos co-incineradora.
Ou seja, uma incineradora que, para além dessa função, destruir pelo calor, teria uma outra função principal: produzir calor.
Ao queimarmos este lixo, estaríamos ainda a poupar os nossos recursos energéticos.
Como é mais do que evidente, uma co-incineradora doméstica é uma ideia bizarra e uma ideia altamente dispendiosa. Não porque não fosse possível produzir a estação de queima e produtora de calor, mas porque os filtros a implementar se tornariam incomportáveis em termos de custo.
Por isso, esta solução final para os nossos amados lixos deve ser vista numa perspectiva social e aproveitando grandes unidades consumidoras de energia.
Toda a gente sabe que as cimenteiras têm grandes fornos produtores de energia, para que seja possível a produção de cimentos e cal.
Sabemos também que as cimenteiras têm sido altamente responsáveis por crimes ecológicos de grande dimensão. São disso exemplo vivo, Souselas, Maceira e Outão.
É lamentável a impunidade com que os nossos "grandes" industriais desta área se têm movimentado em relação às emissões de produtos altamente poluentes para os rios e o ar.
A proposta do antigo ministro do ambiente José Sócrates para estabelecer a co-incineração nas fábricas de cimento visava resolver dois problemas fundamentais:
Por um lado obrigar as cimenteiras a resolverem de forma eficaz a questão das emissões poluentes, por outro, transformar lixo imprestável e não reutilizável em algo de útil: energia.
Pegou-se nesta questão por muitos lados possíveis. A começar pelo lado político, apenas porque alarmar populações costuma dar votos ou protagonismo.
Os movimentos ecologistas hipervalorizaram os lados menos positivos da questão (desde logo a existência de cimenteiras) e esqueceram (quero acreditar que por demasiada focalização no problema) todas as vantagens das soluções estudadas.
A comissão que fez os estudos sobre esta matéria foi presidida por um Homem que eu conheço muito bem, com o qual tive oportunidade de debater muitas vezes tudo o que se passou e disse sobre isto e que, e isso pode ser interessante para muitos, não faz parte da esfera política do partido socialista e foi escolhido porque é um especialista em epidemiologia, um Homem com uma formação sólida no que diz respeito a matérias como aquela que deve ser a grande preocupação: a segurança das populações.
Por tudo isto... eu acredito que devemos olhar para esta questão de forma partidariamente desapaixonada.
E devemos sobretudo, como povo, como cidadãos, defender que antes de entregar o nosso precioso lixo para a solução final... devemos pensar em REDUZIR, REUTILIZAR E RECICLAR para, só em desespero de causa, RESOLVER, produzindo afinal uma última mais valia: energia!

Hoje é o dia...


É o dia em que muitos países pelo mundo fora têm um forte motivo para equacionar o papel da mulher na sociedade.
Hoje é o dia Internacional da Mulher e por isso, quer sejamos mais ou menos focalizados na questão dos direitos da mulher, inevitavelmente seremos tentados a pensar ou discutir estas questões.

Como é evidente, ouvem-se comentários curiosos em dias como o de hoje, do tipo: então e o dia internacional do Homem?!

Não nos esqueçamos nunca, até porque seria preciso muita distracção, que o mundo é governado pelo detentor do falo.
O mundo foi, é e muito provavelmente será, governado pelo mais forte. Pelo mais forte no sentido físico do termo, já que existem outro tipo de forças que escapam muitas vezes ao jogo do poder.
E, por isso, cada dia que passa é o dia Internacional do Homem!
E não vale a pena negar que grande parte dos nossos insucessos enquanto espécie à superfície do planeta se deve à negação do nosso lado mais feminino enquanto Seres Humanos.
Nós Homens, temos uma natural tendência para jogos... e de poder também.
E o "fair play"... é normalmente associado a quem não gosta de vencer, a quem não tem prazer pelo sucesso...
E é por isso, porque acredito que vale a pena homenagear todas as mulheres do mundo... as Mães, as nossas Companheiras, as Filhas, as irmãs, as Amigas e todas as outras...
que digo a todas: Feliz dia da Mulher!
E Obrigado!

sábado, março 04, 2006

Como gosto de lixo - parte II


Portanto, como me parece ter ficado mais ou menos claro na primeira parte deste artigo, todo o lixo pode ter o seu lado bom. O lixo é nosso Amigo!
O lixo orgânico pode ser transformado em fertilizante, quer nas nossas casas, quer de forma industrial.
O lixo industrial pode ser reciclado, isto é, pode voltar a ser transformado em produtos novos.

Quando se fala de preocupações ecológicas devemos sempre lembrar os 3 R's:

Reduzir, Reutilizar e Reciclar.

O primeiro é muito provavelmente o mais importante. Sem ele e com o excesso de população do nosso planeta e a escassez de alguns recursos naturais, secaremos o nosso mundo, esgotaremos os recursos energéticos não renováveis e poluiremos a níveis insuportáveis.
E reduzir é muitas vezes a diferença entre querer ou não querer.
Basta estar atento a pequenos gestos e alterar rotinas de consumo desnecessário.
Basta fechar as torneiras quando se entra no desperdício. Desligar as luzes quando não precisamos de iluminação, reduzir o aquecimento das nossas casas e, no verão, reduzir a utilização de ar condicionado.
Ao nível social importa ainda lutar por uma gestão equilibrada ao nível autárquico, defendendo a implementação de transportes colectivos que permitam conforto e rapidez e nos permitam deixar o carro em casa.
É o primeiro e é sem dúvida o R mais difícil de implementar, porque depende de todos, na medida em que depende de cada um!
O segundo R é também do âmbito da consciência individual.
Reutilizar é uma prática difícil quando pensamos que o que define a maior parte dos seres humanos é a atracção pela novidade.
Ao procurarmos de forma quase obcessiva tudo o que é novo, tendemos a deitar para o lixo coisas que estão ainda em perfeito estado de utilização.
Para além disso, como nos achamos muito civilizados, tendemos a gozar com aqueles que reutilizam até à exaustão os materiais que possuem.
Lembro-me, a propósito deste R, do que era prática em Marrocos há cerca de 10 anos: Um pneu, depois de ser usado no automóvel até aos seus limites, passava às carroças puxadas por animais onde rodava mais uns tempos.
Depois, era utilizado nas paredes de recipientes vários. E, por fim, acabava nas sandálias das multidões.
É um exemplo apenas, mas recordo-me que em Portugal, há muitos anos, se faziam maravilhas com material abandonado.
Lembram-se dos carrinhos feitos de latas de conserva?!
O último R depende da indústria, mas depende também de cada um de nós.
Para que as autarquias reciclem o nosso lixo, é crítico que o separemos e depositemos nos locais adequados.
Para isso é preciso vencer a inércia e fazer o que ensinam aos nossos filhos.
É um esforço que os nossos netos nos agradecerão.
E depois, importa ainda preferir os materiais que são fruto da reciclagem!
Sobram ainda todos aqueles produtos que não é possível nem reutilizar, nem reciclar.
A esses, o destino é ou o armazenamento ou a destruíção.
Temos como exemplo, no limite, os resíduos nucleares, mas existem muitos outros.
  • Os materiais contaminantes dos hospitais.
  • Todos os produtos químicos que resultam da utilização de máquinas ou de indústrias.
  • E muitos, muitos outros.
Em relação aos resíduos nucleares, porque não se conhecem formas, nem de reutilização, reciclagem ou mesmo armazenamento seguro, alguns defendem o seu envio para o espaço.
Deixando de fora as questões éticas de povoar o espaço exterior com o nosso lixo, imaginem os custos energéticos que essa solução comporta. Porque é necessário construir naves de transporte e alimentá-las com o necessário combustível...
Mas voltemos à questão da destruíção dos lixos que não conseguimos tratar de outra forma.
A discussão do momento é a co-incineração... mas fica para a parte III.

Ao Norte... ao Norte!

Faço aqui um pequeno interregno nos artigos sobre o lixo, para vos dizer a todos que o link Portugalícia já mexe.
Após alguns comentários sem artigo, o meu Amigo José Rocha, lá deu início ao seu próprio blog, mais direccionado para assuntos do Norte, ou melhor dizendo da Nação Galaico Duriense.

Estamos de olho nele!

Como gosto de lixo! – parte I


O lixo é uma coisa boa...
É verdade! Acreditem! O lixo é nosso Amigo!
Todos nós conhecemos pessoas que têm o lixo bem à beira da porta de casa. Que o vão acumulando e enriquecendo criteriosamente.
Umas cascas de batata hoje, restos de fruta já podre, excrementos do gado vacuum e todas as espécies de matéria orgânica que se podem acumular e transformar.

Sinais dos tempos, porque não era muito bonito nem higiénico acumular tanta matéria em decomposição tão em cima da família, tenho na minha casa do Porto uma pequena central de compostagem onde vou depositando o meu lixo doméstico.
É bonito ir vendo o meu lixo crescer e transformar-se progressivamente na futura terra dos meus canteiros.

É verdade! Gosto muito do meu lixo!

Há outro tipo de lixo do qual eu gosto menos, que é assim como aqueles conhecidos com que nos cruzamos, mas pelos quais não podemos afirmar ter afectos profundos.
Estou-me a referir a todas as garrafas que usei, aos papeis que vou utilizando e perdem a serventia, aos plásticos (os plásticos, meu Deus, quanto se poderia dizer sobre eles), as pilhas sem carga e todas as infinitas embalagens que usamos no nosso dia a dia de animal consumista.
Mas não é por não sermos Amigos intímos que gosto menos deste lixo.
Aprecio-o. Não a sua companhia, mas o que ele ainda pode fazer por nós. Que é muito. Não duvidem. Basta que lhe dediquemos a atenção necessária.
Com alguma periodicidade (demasiada, o que quer dizer que gastamos demais) lá vou ao ecoponto depositá-lo, cada lixo em sua cor.
Porque entendo que faço demasiado lixo, troquei as pilhas descartáveis por pilhas recarregáveis, trago o menor número possível de sacos plásticos do super-mercado e vou-me forçando (não é fácil) no sentido de contrariar maus hábitos diários.

Também posso dizer, em função disto, que tenho alguma simpatia por este lixo menos domesticável!

Há ainda outro lixo, que também vai aparecendo cá por casa, que me consome o juízo.
É do tipo daqueles sujeitos que aparecem sem ser convidados e tardam em ir embora.
Os óleos alimentares, as tintas que sobram em cada pintura que fazemos e imensos produtos químicos que os ecopontos não aceitam. (O do Porto, pasmem, não sabe o que lhes fazer! Sugere que se misturem com o primeiro tipo de lixo, assim do género: porque não faz uma caldeirada?!)

Pobre lixo que parece tão imprestável!
Como é evidente, quando organizada, a sociedade pode voltar a dar dignidade a estes detritos, transformando-os em novas coisas.
É preciso vontade política, que o mesmo é dizer, vontade de fazer algo pela sociedade em que vivemos.

É por estas razões que fico imensamente triste quando vejo maltratar algo de tão precioso como todos os restos de coisas boas que referi.
Fico triste, imensamente triste, quando vejo que vivo num País em que o Povo é capaz de abandonar este tipo de riqueza em qualquer ponto do pequeno rectângulo Nacional, desde o litoral ao interior profundo.
Fico chocado quando, em plena Serra da Freita (lá para os lados de Arouca), ao olhar para o espectáculo que é a Frecha da Mizarela (uma cascata lindíssima) podemos em simultâneo observar a publicidade à Coca-cola (a de sempre), às águas puras do Luso, do Caramulo, da serra da estrela e a várias marcas de batata frita e produtos afins, criteriosamente espalhados pela encosta do miradouro.

Temos um País que deve ser visto pelos seus habitantes como um grande Ecoponto, do tipo polivalente, em que tudo se pode misturar para dar um resultado multicolor.

Pois é! É exactamente porque Amo o meu lixo que acho que o devemos tratar bem.

Mas adiante... porque este artigo já vai longo... amanhã ou depois escreverei a parte II que será sobre a tão falada co-incineração. Aliás, temo que tenha que escrever também a parte III. Depois veremos!

quarta-feira, março 01, 2006

Os consensos


Há alguns dias, enquanto bebíamos um copo no bar Saloon do Porto, eu, o José Rocha, o nosso Amigo Vatamico e a Carmen, discutíamos a actividade que vamos tendo e vendo na "blogosfera".
Nessa altura fui acusado de estar a tentar ser consensual. De abordar os temas de forma pouco característica, quando tendo em linha de conta que, nas discussões entre Amigos, sou, regra geral, bem mais combativo e peremptório.

Como é evidente não concordo de forma alguma com essa leitura sobre os meus textos e os seus conteúdos.
Não procuro o confronto violento, mas não fujo às opiniões claras sobre nenhuma matéria, salvo quando efectivamente não tenho opinião (o que não é habitual).

Isso é assim em relação a muitos temas já abordados neste blog, como p.e. a despenalização da prática do aborto, em que defendo muito claramente o direito à opção das mulheres que se encontram frente a uma decisão dessas.
É assim no que diz respeito à eutanásia, em que defendo também o direito a que cada cidadão possa escolher o momento da sua morte ou naquelas situações em que o profissional de saúde deve poder determinar quando se passou o limiar da humanidade e é imperativo desligar os apoios artificiais à vida.
Tenho uma opinião clara sobre a pena de morte, entendendo que em circunstância alguma devemos privar qualquer ser Humano do direito à vida, mesmo quando nos parece ser esse o caminho mais sedutor em determinados momentos e perante certos criminosos.

E reparem que, numa leitura rápida, bastariam estes temas para poder ser acusado de incoerência, quando a mim me parece evidente e fácil de provar que é bem ao contrário. Há uma linha de orientação comum em cada um destes assuntos.

Também no que diz respeito ao casamento livre entre pessoas, independentemente dos seus credos, cores, sexos ou outras diferenças sou claramente a favor.
Como defendo que, mesmo quando há claras maiorias é fundamental o respeito pelas minorias.
Parece-me claro que a lei deve servir o social e não servir como impeditivo ao desenvolvimento da sociedade e que, por essa razão, não vale a pena proibir o que não pode ser sequer limitado, valendo sim a pena regulamentar, para ao menos moralizar e tornar mais humano. A proibição da prostituíção enquadra-se no tipo de lei que é contra toda a lógica.
Também não procuro consensos quando entendo que o uso de drogas não deve ser proibido mas sim regulado, pois acredito que cada ser Humano tem todo o direito à dignidade mas não pode ser obrigado a viver vidas que não quer.
Viver em liberdade deve ser sempre uma opção individual. A liberdade só faz sentido assim!
Num próximo artigo falarei sobre este assunto que me parece de importância crescente na nossa sociedade.

Não! Não me preocupo com consensos.
Tenho opiniões muito claras. Defendo-as de forma enérgica.
Só não me parece é que seja obrigatório zangarmo-nos por causa disso!

Porque sei, tenho a certeza absoluta, que se todos pensássemos da mesma maneira isto não teria graça nenhuma.

Apenas não tenho paciência para defensores de genocídios, de holocaustos, de censuras prévias, e de muitas outras coisas que, obviamente, me impediriam de ter opinião.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

A Democracia é o pior de todos os sistemas...


Há temas que, invariavelmente, levam a uma grande crispação.
De todos, aquele que me parece mais frequente na criação desse estado de espírito, aqui traduzido em estado de letras, é a política.
Mais do que o tema religioso, o tema da homossexualidade e do casamento entre “gays”, do tema do aborto, do tema dos cartoons e da terrível guerra dos mundos, cada vez que se abordam temas relacionados com a diferença entre esquerda e direita, os ânimos aquecem, surgem comentários anónimos e troca de piadas.
Ao visitar outros blogs, apercebo-me que a crispação acontece por outros lados, às vezes com diálogos irritados entre conterrâneos ou entre desconhecidos.
Muitas vezes os autores e os comentadores irritam-se (eu incluído).

Eu acredito que isso se deve a 48 anos de amordaçamento.
48 anos em que falar poderia ser um crime grave, punido com prisão, degredo ou exílio, às vezes com a morte.
48 anos em que era possível eliminar fisicamente adversários políticos.
48 anos em que não se votava regularmente e que, quando isso acontecia, votavam também os mortos, porque esses votavam sempre no poder. (o meu Pai, que era Professor Primário numa aldeia do interior, preencheu muitos boletins a mando do cacique local).
48 anos em que o estado era invadido pelos piores tentáculos da igreja.
48 anos em que os melhores da igreja eram ostracizados ou perseguidos.
48 anos em que o povo era metodicamente embrutecido para alegremente ser obediente.
48 anos em que se acreditava no pior do nosso hino e se gritava “Às Armas... às Armas” em vez de proclamar este “Nobre Povo, Nação Valente e Imortal”.
48 anos em que se afirmou o ideal da Raça num País que se poderia ter visto como multi-racial.

E depois aconteceu Abril!

E vivemos anos de loucura. Anos de deslumbramento. De excessos. De Paixões. De Esperança... e desesperanças.

Hoje, 32 anos após a nossa revolução de cravos na ponta das espingardas, valeria a pena sarar algumas feridas e, de forma mais madura, com a força dos Amores crescidos, reflectir sobre as nossas grandes conquistas.

Temos muita coisa menos boa, fruto da nossa revolução apaixonada, mas também, da nossa herança pesada.
Mas temos um grande património. Podemos pensar livremente e falar ou gritar o que nos vai na Alma.

Como diria o Poeta Cantor Sérgio Godinho numa das suas canções “A Democracia é o pior de todos os sistemas... à excepção de todos os outros”.

Viva a esquerda e a direita, porque são ambas parte da nossa condição Humana.

Possamos nós escolher sempre o lado em que queremos estar!

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

O Vasco Granja


Ao ler alguns comentários recentes a artigos deste blog lembrei-me de um assunto que me parece interessante partilhar convosco.
O meu Amigo Marco, na brincadeira, enviou-me cumprimentos do Vasco Granja (tratava-se de uma resposta a uma "boca" do Óscar.
Daí até entrar no saco fundo onde guardo os meus neurónios responsáveis pela memória, foi um salto de pardal.
A minha Amiga Sulista respondeu perguntando se nós conhecíamos o Vasco Granja, o que, infelizmente, não é totalmente verdade.
Conhecemos, mas apenas do pequeno ecran...

Dei um pouco aos dedos na internet e descobri que o vasco Granja tem 77 anos, que é a idade em que Hergé achava que a BD deixava de ser leitura interessante.

Quando eramos miudos e queríamos ver os bonecos tínhamos que esperar pacientemente.
A oferta era escassa. Resumia-se a uns breves 15 minutos diários de Super Rato, de speedy Gonzalez ou de Bip Bip.
Aos domingos tínhamos o prazer sublime de ver cinema de animação por um período mais longo, com o Walt Disney a apresentar os seus herois.
Estes momentos curtos espicaçavam ainda mais o nosso interesse. De tal forma que uma ida ao cinema para ver o Ben-Hur ou os 10 mandamentos tinha o momento mágico na animação inicial.
Era lindo!
Foi aí, já depois do 25 de Abril, que apareceu o Vasco Granja. Com desenhos do outro mundo. Uns melhores... outros nem por isso.
Variedade e muito mais tempo para rir.
Bonecos feitos de tudo. De plasticina, de cordel e de muita imaginação.
Mas havia vida para além da animação...
Divertiamo-nos a ver o cartaz TV (a minha filha nem quis acreditar que conseguíssemos passar uma hora por semana a ver a programação dos dias seguintes).
O “Se bem me lembro” do Vitorino Nemésio era magnético para mim.
E as séries não eram diárias como hoje são as telenovelas. Eram semanais.
Uma das que recordo com mais nostalgia era “Casei com uma feiticeira”.
Há alguns dias, ao ver a reposição no canal 2, fiquei em estado de choque ao saber que a protagonista já tinha morrido (de velha!).

Todo este palavrado revivalista serve um propósito fundamental: reflectir sobre os efeitos da escassez e os efeitos da abundância.

Quando a oferta era pouca. Usavamos os nossos tempos de espera ansiosa a fazer construções com Lego, a ler os livros dos "Cinco" (li mais de vinte vezes "os cinco voltam à ilha"), bem como dos "Sete" e a fazer aquelas coisas que enlouqueciam os nossos Pais.
Nos momentos em que a televisão nos dava o que queríamos, aproveitávamos ao máximo.
E depois...
Ouvíamos música... mas como tínhamos poucos LP’s (por acaso nem tenho saudades do vinil), cada disco era tocado até só se ouvirem as batatas a fritar.

Hoje que a oferta é muita, provavelmente excessiva, valoriza-se pouco o que temos. Usamos demasiado tempo em frente ao televisor a fazer “mappling” e “zapping” e achamos que os momentos que temos entre estas actividades e os computadores são enfadonhos e difíceis de suportar.
Como Pai, acho que nem sou dos que terão mais razões de queixa. A Joana lê bastante, gosta de conversar de viva voz com os Amigos. Ouve música (até bastante audível) e sabe divertir-se... Nem liga muito à televisão.

No entanto... reflito muitas vezes sobre esta questão: devemos restringir o acesso à internet e à televisão aos nossos filhos?
Tenho Amigos que têm horários apertados para cada coisa. Faz sentido?
É que eu acho que é proibido proibir... mas também não gosto de excesso de facilidades...

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

O Juíz decide... por favor...

Hoje voltei a viver uma experiência muuuuito interessante.
Fui pela terceira vez ao tribunal criminal do Porto (ao 2ºjuízo) na esperança de poder resolver um assunto já com alguns anos.

A esperança, diz o povo, é a última a morrer... e como eu sou um Homem de fé, lá fui à hora marcada.
Mas... comecemos pelo princípio.

Há cerca de 3 anos (já nem me lembro com exactidão), ao trazer a minha filha da escola para casa, ao fim do dia, presenciei uma daquelas situações desagradáveis de uma discussão motivada por complicações de trânsito.
Uma senhora já com uma certa idade (mais de 60 anos) descarregava o carro obstruindo ligeiramente a rua.
Um condutor viu-se obrigado a parar o carro e iniciou-se a habitual troca de buzinadelas (para desespero dos peões passantes) e daí aos mimos do costume foi um instante.
De súbito, saltam do interior do automóvel 2 Homens e uma Mulher que iniciam um espancamento público digno das sequelas da guerra do Iraque.
No momento em que me vi forçado a intervir (a medo, claro!) já havia sangue e foi necessário ameaçar com a polícia para que a agressora deixasse de trincar a mão da agredida.
Foi isto! O agressores arrancaram à pressa (o milagre do desentupimento do trânsito aconteceu) e eu lá acabei por deixar os meus dados, a matrícula dos meliantes e a promessa da minha boa vontade.

Não imaginava onde me estava a meter!
2 anos depois fui depor à polícia (que me agradeceu a disponibilidade) e contei esta mesma história.
Em Dezembro foi marcada uma audiência num dos tribunais do Porto. Lá fui, esperei 2h30m e comunicaram-me que por falta de um arguido tinha sido adiada para Janeiro.
Em Janeiro lá voltei a estar. As testemunhas (que agora são mais que as mães e afiançam terem lá estado todas! Milagre das rosas aplicado aos amigos dos arguidos) não faltaram... os arguidos também não, nem tão pouco a queixosa.
É preciso deixar bem claro que eu já não conseguia reconhecer ninguém!
Os advogados compareceram e por isso esperámos mais 2h e qualquer coisa (uma manhã toda à volta de coisa nenhuma).
O Juíz (ou o oficial de justiça, que eu nestas coisas da barra dos tribunais sou um leigo) mandou dizer que o julgamento ficava marcado para o dia 13 de Fevereiro.
Não perdi o tempo todo. Fiquei a saber mais umas coisas sobre chás e produtos naturais... discuti um pouco do desenrolar da última jornada futebolística, aproveitei para dar uma vista de olhos nas revistas do costume (tal qual como nos consultórios médicos) e assisti ao vivo a debates agitados (fora da sala de audiências) entre amigos das duas facções em conflito.
Senti-me tão sozinho!...
É que por acaso, eu até era o único que não conhecia ninguém.

E hoje, este cidadão armado em testemunha, lá voltou ao tribunal.

Estranho... muuuuito estranho... o tribunal à hora marcada estava quase deserto.
Fui ver... não, não era neve... era apenas um pequeno lapso do tribunal. Tinham tentado avisar-me por telefone do adiamento do julgamento, mas optaram por não deixar mensagem no voice mail.

E assim sendo lá voltarei para a semana... esperando que seja a última vez.

Uma pergunta: será que fazem estas coisas para acalmar os impulsos de cidadania?!

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Mas que mania...

Às vezes lá calha!

A mim? O tal que começa por ter a mania que continuar correntes (as correntes em sms, em email, em cartas... eu sei lá!) pode dar azar?!

A mim, pois!

A Sofia (do Blog se vê) lembrou-se de me colocar lá no seu sítio como vítima a contaminar.
Está bom de ver que só me apeteceu fazer de conta que não tinha visto o recado...
Mas quem é que consegue impedir um tipo como eu, com um ego super-alimentado, de falar sobre o seu umbigo?
Claro que falar de manias deixa um pouco a desejar... mas tudo se tenta compor.

Para começar, a primeira é mesmo a mania que continuar correntes dá azar.
A segunda é que existe uma cidade a Norte do rio Douro que é especial. O Porto claro!
A terceira é que o que faz o nosso F.C.Porto grande é a atitude! A nossa capacidade de acreditar. Sempre!
A quarta é que vale sempre a pena uma boa discussão, isto é: falar e ouvir os outros. Lembrem-se que é dela que nasce a luz!
E a última e não menos importante, é que vale a pena viver. Com espírito positivo e lado a lado com os Amigos.

E sobre os Amigos... valia a pena escrever um post. Mas fica para depois que agora estou a pensar sobre as vítimas a escolher.
Ainda pensei escolher blogs que não me visitem... assim tipo castigo.
Também considerei a hipótese de escolher visitantes sem blog, tipo Vatamico, mas era batota.
Sobrou para os mais assíduos.

E... porque o que tem de ser tem muita força...
E até quando se fala de segurança rodoviária haverá concerteza manias qb lembrei-me do Nuno Figueiredo do Sentido Proibido
Lembrei-me também dos , Contos Eróticos de Sutra um blog curioso sobre temas sempre interessantes e onde não faltam manias com toda a certeza.
O Zel da Roda de Pedra que tem tido a amabilidade de nos visitar frequentemente e agora leva com isto (valha-nos Deus! Que mania de penalizar quem nos dá atenção).
A Eva dos Delírios da Eva que entre outras coisas tem um blog que fala das ilhas mágicas dos Açores. Manias insulares não faltarão.
e... para dar aquela imagem internacionalista, mas dentro da pátria da língua de Camões... lembrei-me da Vica dos Novos Ares que de quando em quando aparece por aqui para deixar os seus comentários simpáticos do lado de lá do Atlântico... tanto mar... tanto mar... até pode ser que as manias do Brasil sejam do tipo das nossas... porque não?!

Ufa!
Nem imaginam o que sofri a colocar todos estes hiperlinks que espero que fiquem a funcionar sem sobressaltos.

Aproveito para dizer a todos os eleitos que deverão escrever nos seus blogs um artigo onde apresentem 5 manias (não precisam de ser as inconfessáveis) e escolher 5 inocentes bloguistas para continuar esta cadeia de divulgação da blogosfera.
Se algum destes blogs já foi indigitado nesta tarefa espinhosa... sei lá! Adiante!

Até ao próximo post... menos infeccioso.

domingo, fevereiro 05, 2006

Na casa dos outros...


Se fosse para dizer banalidades, (coisa que muitas vezes até tem graça), provavelmente escolheria outras vias de comunicação.
Os temas mais banais, aqueles que não nos aquecem nem arrefecem mas que muitas vezes nos fazem rir, precisam de mais presença, de mais risos fáceis.

E é por isso, porque estes espaços da net nos dão mais tempo para reflectir, que gosto de escolher temas mais controversos.
Ao ler os comentários ao meu último artigo, apercebo-me como é fácil distorcer o que pensamos.
Algumas vezes bastará um erro de interpretação ou uma leitura menos atenta, ou até, porque não, uma construção deficiente do texto.
Outras vezes, infelizmente muitas, bastará um pouco de má fé, aliada a maus instintos e atitude cobarde escondida sobre o nome de um qualquer anónimo.

Para que fique claro, esta sociedade onde vivemos, dita civilizada e ocidental tem imensos defeitos que abomino, mas também inúmeras virtudes que defendo.
Apenas não me assumo como paladino do "ocidentalismo" pelos quatro cantos do mundo. (ideia curiosa esta, dos quatro cantos, que continuamos a usar, apesar de estarmos hoje bem certos de que o mundo é redondo, ligeiramente achatado nos polos).
E antes de tratar o tema que escolhi para hoje, aproveito ainda para dizer (neste casos escrevendo), que os próprios termos "civilizada" e "ocidental" são de per si bem relativos. Para que nos assumamos como ocidentais, apenas é necessário que nos desloquemos para o lado oeste de um qualquer oriente. É sempre uma questão de posicionamento e perspectiva.

Mas... adiante!
Uma das virtudes que aprecio, na nossa velha e sábia Europa, apesar de já sem alguns dentes, (a velha Europa, claro) é a ideia de tolerância e de respeito pela diferença.
Já o disse muitas vezes, mas faço parte dos que acreditam que a Democracia é mais que o poder das maiorias. É também, necessariamente, o respeito pelas minorias.
E isto deve servir para quando estamos no lado das minorias, mas, sobretudo, para quando fazemos parte das maiorias.

E assim sendo... sendo certo que faço parte do numeroso número dos que fizeram uma opção heterossexual e, porque encontraram a pessoa que acharam adequada para partilharem uma vida comum, fizeram um contrato público que define as regras da vida em comum, não percebo porque razão, só porque faço parte de uma maioria, hei-de inviabilizar outras opções de vida.

Hoje discute-se a possibilidade de pessoas, independentemente do seu sexo, poderem celebrar um contrato do tipo do casamento.
Ouvem-se as vozes dos detractores desta medida, alegando que este tipo de casamento é contra-natura, que contraria o grande desígnio do ser humano, agora assumido como a reprodução da espécie.
É curioso verificar que muitos dos principais opositores à legalização deste tipo de casamento optarem também eles por não se reproduzirem...

Pois a mim parece-me que o principal intuito de um alargamento do âmbito da lei que define as condições do casamento é regulamentar o que já acontece de facto.
Permitir que quem opta por dividir a sua vida e também a propriedade, o possa fazer de forma clara, sem ambiguidades e constrangimentos.
Com a celebração de contratos entre pessoas, independentemente do sexo, assegura-se que quem casa aceita regras determinadas de convivência e define também o que acontece aos membros do casal quando um deles morre. Determinando a transmissão da propriedade e evitando que pessoas que viveram juntas uma vida inteira, que juntas construiram e partilharam espaços e vivências, possam ser privadas disso mesmo por outros, em nome de laços familiares.

Acredito na Família, mas acredito também que somos mais do que isso. Somos em função de quem Amamos, família ou não e isso está bem patente na lei, quando define que o conjuge, apesar de não ter connosco laços de sangue, é também família.

Porque não há-de alguém poder afirmar isso mesmo... para além da possibilidade da existência de laços sexuais?

Somos de facto uma sociedade obcecada sempre com o mesmo. Haja Freud!

Um caso final para reflectirmos:
Se duas pessoas decidirem compartilhar espaços e atenção e optarem por viverem juntas, nós seremos capazes de criticar?
Se ao fim de alguns anos uma delas morrer e a casa onde viviam for reclamada pelos seus herdeiros, seremos capazes de apoiar o despejo da que sobreviveu à primeira?
Se os mesmos herdeiros reclamarem todos os pertences, independentemente de saberem ou provarem a quem pertenciam de facto, se ao seu familiar, se à outra pessoa ou se às duas, ficaremos calados?

Ou seremos capazes de defender a existência de uma lei, clara e inequívoca, que determine a possibilidade de celebração de contratos entre duas pessoas, independentemente das suas opções sexuais, dos seus credos religiosos, das suas idades, da cor das suas peles?

Vá lá! Pensem nisto! Afinal... nem precisamos de viver com elas!

sábado, fevereiro 04, 2006

Brinquem... brinquem... mas com cuidado!

A liberdade de expressão é um tema difícil.
Difícil porque se trata do exercício de um dos mais preciosos bens de que dispomos enquanto seres humanos.
E é por isso que me assaltam sentimentos contraditórios quando reflicto sobre os "cartoons" do Profeta Maomé.
Confesso que ainda não tive oportunidade de olhar para eles e "ver claramente visto" o pomo da discórdia.
Confesso também que a curiosidade me roi...
Mas, porque o que importa não é tanto o cartoon em si, mas a intenção por detrás da caricatura, parece-me legítimo usar da minha liberdade de expressão para opinar sobre a matéria.
Como cidadão do mundo entendo que posso observar o mundo inteiro, ter opiniões próprias sobre as realidades observadas e comentá-las com os meus concidadãos.
No entanto, porque acredito que só somos livres, verdadeiramente livres, quando respeitamos os outros, evito a piada gratuita, o comentário inoportuno e tento não ferir susceptibilidades desnecessariamente.
Neste caso, compreendo a atitude do primeiro ministro da Dinamarca, ao afirmar que, no respeito pela liberdade de imprensa, não pode impedir os desenhos sobre o Profeta, mas que lamenta os ataques inusitados (não terão sido exactamente estas as suas palavras, mas a intenção era esta).

Imaginemos que, um qualquer estrangeiro, um pagão qualquer ou um infiel empedernido, se lembrava de fazer "cartoons" difamatórios sobre a virgindade de Maria, a honestidade de Jesus ou qualquer outra coisa de carácter menos abonatório para a nossa fé Cristã...
Já não temos fogueiras em actividade para queimar os hereges... já não dispomos de câmaras de tortura para extorquir confissões aos infieis (não teremos?!), mas vontade não faltaria a muitos.

A virtude dos povos mais tolerantes está na rápida auto-crítica, temperada com a tolerância para com os erros alheios.

Temos tanto tema para cartoons na nossa querida Europa. Até podemos ir mais longe e fazer piadas com os nossos parceiros deste "ocidente cultural". Podemos até brincar com a sacro-santa globalização...
Não é, seguramente, com atitudes destas que poderemos defender o ecumenismo.
Não é por este caminho que ganhamos autoridade nas críticas ao fundamentalismo islâmico.
Não conseguiremos conquistar os povos vizinhos com estas piadas sobre as suas convicções profundas.
Nem tão pouco, ao associar o Profeta Maomé à imagem de uma bomba, provamos ao Islão que conhecemos a sua cultura. Que lemos o Corão e compreendemos que a verdadeira mensagem que está contida nas suas palavras é a mensagem dos grandes livros da Humanidade, ou seja: a mensagem de Paz.

Como diria o "Diácono Remédios": Brinquem, brinquem... mas com cuidado.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

O sabor amargo... no céu da minha boca.


Às vezes pergunto-me que espécie de religiosidade é a minha que oscila de forma ostensiva entre as mais sagradas certezas científicas e as mais absolutas dúvidas místicas...
À medida que os anos passam e, porque inevitavelmente não podemos deixar de ver o circo do mundo, vamos tomando consciência da ideia de morte e procurando, uma a uma, resolver todas as grandes questões filosóficas, como se fossemos o grande escolhido dum qualquer desígnio supra-humano.
Com os anos, vou aprendendo a respeitar os grandes vultos da história da nossa humanidade e, à medida que tento compreendê-los, separá-los da corrosão do tempo e do sedimento que lhes colocam em cima.
Lembro-me de vários autores que afirmavam, umas vezes de forma subtil, outras de forma grotesca, que na hora do momento final, todos se convertem à religião que está mais à mão...
Não tenho dúvidas que nós, seres humanos, como provavelmente outros animais, precisamos de ter fé.
Uns acreditam em Deuses crueis e castigadores, outros acreditam em Deuses super-protectores, outros em Divindades à sua própria imagem e outros em verdades científicas mais ou menos dentro do prazo de validade.
Li há dias um livro muito interessante, de um dos meus autores preferidos, Amin Maalouf, que aborda um tema muito actual, provavelmente sempre actual: A relação entre as várias religiões e a forma como se ligam umas às outras.
O tema é contemporâneo, apesar de a acção se passar há mais de mil anos, na época do início do declínio Romano.
Hoje como ontem o mundo contorce-se em torno de formas de ver o mundo, de perspectivas diferentes sobre a realidade...
Trata-se de um romance histórico, sobre a vida de Mani, que deu origem à expressão "maniqueísmo", mas que, como se pode compreender pela leitura, é absolutamente o oposto do sentido em que usamos hoje este termo.
O termo "maniqueísmo" é usado para ilustrar uma concepção do mundo a preto e branco, uma forma de encarar as coisas, afirmando que ou se está em baixo ou se está em cima, resumindo, onde as coisas têm que ser "bem" ou "mal".
O que mais me impressionou neste livro - Jardins de Luz , Amin Maalouf - para além da forma notável como está escrito e para além do testemunho de uma vida (e de uma morte) em tudo comparável à dos grandes enviados da sabedoria, é o facto de se conseguir encobrir durante séculos uma história tão notável.
Mais ainda... a forma como a "situação" conseguiu distorcer de forma tão grosseira, mas eficaz, a História por detrás da história.
É triste! Como é triste verificar que conhecemos um Cristo, muito provavelmente bem diferente daquele que viveu na Galileia, um Buda distante das suas ideias originais e por aí fora.
Daqui a mil anos que dirão sobre Ghandi?
Que histórias contarão sobre Martin Luther King?
E que saberemos nós, hoje, sobre o que se passa realmente à nossa volta?!
Como poderemos nós fugir a esta grande trama e encontrar os caminhos mais seguros?
Há dias assim... em que acordo e adormeço com um sabor amargo, no céu da minha boca.

domingo, janeiro 22, 2006

Viva a Democracia! Sempre!



Porque mesmos vencidos não teremos que estar convencidos!

Hoje perdemos por uma unha negra... perderam os que acreditaram noutras candidaturas, os que queriam um estilo diferente, mais dialogante, mais interventivo, com mais respeito pelas diferenças, com uma visão menos economicista, e com um pendor mais humanista.

É assim a Democracia. Por um voto se ganha, por um voto se perde.

Hoje, a diferença é de escassos 40.000 votos em milhões de Portugueses.

É uma diferença qb.

É uma diferença esmagadora.

É uma diferença incontornável.

Hoje, depois de saber os resultados eleitorais, brindei à Democracia e à Liberdade.

Brindei ao pluralismo!

Mas não me peçam para estar feliz.

A minha Alma está da cor das bandeiras.

Que o futuro seja mais colorido!